4.11.09

Cantoria II

Escrevo por um instante... Quase um cantico...
E a minha vida, nesse cantico, se completa...
Nem bem alegre nem triste nem romantico...
Quase uma senha secreta...

As vezes como um arqueólogo semantico,
As vezes igual, como uma linha reta...
As vezes básico demais, as vezes tantrico,
As vezes prosador, as vezes poeta...

E no instante em que escrevo, silencioso,
Esse silencio se assume poderoso
E desarruma meu coração.

E desse coração desarrumado
Vejo nascer o poema alinhavado
E não consigo encontrar explicação...

3.11.09

Cantoria

Eu canto porque o instante silencia
E a minha vida nessa hora se incomoda...
Não sou alegre nem sou triste, todavia
Eu canto sambas de roda...

Eu canto porque o instante, como um guia,
Me pede pra cantar, e não me poda...
Faço da musica agradável companhia,
Da voz, minha orquestra de cordas...

Eu canto: Chico, Zeca Pagodinho,
Misturo Bach com uns sambas de Paulinho
E assim a musica livre se completa...

Meu reino por uma cantoria, é o que eu diria...
Meu reino por uma cantoria,
Batuca meu coração de poeta...

20.10.09

A corredeira

Dize-me com que versos tu caminhas
E eu te direi o poeta que tu és...
A forma como tu rimas tuas linhas,
Os versos com que tu desenhas teus papéis...

Como tu tratas as coisas comezinhas,
De que maneira tu contas de um a dez,
Com que argumentos tu agradas as Rainhas,
Com que argumentos tu agradas as ralés...

Dize-me com que versos poemeias,
Espalhando poemas a mancheias
Como quem trama a revolução

E eu te direi o poeta em que te tornas
Cada vez que em palavras tu transformas
A corredeira de teu coração...

18.10.09

18 de outubro
(Dia do Médico)

Gastrenterite aguda, pneumonia,
Abcesso, febre, vomitos, convulsão...
Palavras doentes por companhia,
Palavras pálidas por intima opção...

E desde o inicio quem arriscaria
De cada uma delas a significação?
Ptose, penfigo, hidrocefalia,
Apnéia, linfoma, decorticação...

Palavras doloridas e diárias,
Muitas vezes cruéis, como a urticária,
Outras tantas, gentis, como a amamentação...

Palavras que desenham seu caminho...
Quem dera escritas com o branco de seu linho...
Quem dera guardassem todas solução...

16.10.09

Sexteto para Lislie

Provavelmente nunca desmamada
Quem foi por 52 meses amamentada...
O leite materno... Abundancia de vida...
Nunca portanto a ultima mamada,
Porque esta amamentação foi sublimada:
O peito tornou-se o amor da mãe querida...

15.10.09

A melhor amiga
Para Carla Brasil

Se eu desculpasse sua existencia,
Ou se voce não existisse
O que eu seria?
Um perfume sem essencia...
Um Pais das Maravilhas sem Alice...
Um Vinicius de Moraes sem poesia...
A companhia

Dize-me com quem andas
E eu te direi um versinhoo:
Quem anda muito se perde,
As vezes, devagarinho...

Dize-me então com quem andas
E eu te contarei baixinho
O que aprendi com um verso de Drummond:
Tinha uma pedra no meio do caminho...

Então? Com quem é que andas?
Com quem vais por estas bandas?
Com quem divides teus pés?

Dize-me, e então de presente,
Eu saberei imediatamente
Por com quem andas, quem és...
A Cidade dos Anjos
(Para Roberta Profice)

Nunca chove na Cidade dos Anjos...
Na Cidade dos Anjos o vento nunca assusta...
Não há temporais, relampagos, trovoadas...
Nem raios além dos de um dia de sol...

Nunca chove lá como chove a chuva
Que alaga em poças
Nosso coração...
A Cidade dos Anjos traz suas praças
E calçadas
Trabalhadas com flores e borboletas
Além daqueles pequenos insetos multicoloridos
Da National Geograpihic
Cujo nome não sei dizer de cor...

Repleta de delicadezas,
A Cidade dos Anjos é um bordado
De sorrisos
Alinhavado
Com as malhas do coração gentil
De suas gentes...

Um dia,
Se eu tiver merecimento,
Quero pedir a Deus
Para visitar
A Cidade dos Anjos,
Onde moram os avós,
Os bisavós
E os velhinhos de nossa existencia...

Vou colher uma foto,
E depois de revelar
Colocarei ela num porta retratos
Ao lado da cabeceira da minha cama tosca
No meu quarto quase sem janelas
Onde venta lá fora
E chove as vezes,
E relampeja,
E trovoa...

E cada vez que eu olhar
Aquela foto colhida,
Eu me lembrarei
Do dia
Em que por bondade de Deus
Eu vi a Cidade dos Anjos
E por algum instante,
Entre Anjos,
Fui feliz...

6.9.09

50 anos
06/09/1959 - 06/09/2009

Abro a janela. Observo a paisagem.
É o futuro aparentemente a se mostrar.
Abro a janela como quem segue própria viagem.
Abro a janela. O futuro a respirar.

Da janela o futuro diz sua imagem
E chega como um trem sempre a chegar.
O futuro, como uma grande tecelagem.
Da janela, o futuro a me olhar...

E como um indagador insaciável
Pergunto a esse futuro imponderável:
_Qual é o tempo ainda que me cabe?

E o futuro, inteiro e silencioso,
Responde-me, num sopro cuidadoso:
_Quem é que sabe? E outra vez: _Quem é que sabe?